terça-feira, dezembro 27, 2005

Sinead O'Connor e os leões

Estou no campo e encontro com ela. Totalmente careca, meio baixinha e aqueles grandes olhos azuis melancólicos, ela me vê e canta: "I can eat my dinner in a fancy restaurant, but nothing, I said nothing can take away these blues `cause nothing compares..." etc. Seguimos andando pelo campo e acabamos subindo por uma encosta íngreme, como se fosse uma imensa embalagem de ovos, de pé, na vertical, feita de cimento, com aquelas corcovas. Surgem então leões e leoas, agressivos, urrando, por entre aquelas cavidades, descendo alguns, subindo outros. Eles nos cercam enquanto rugem. Corro em direção ao solo e caio em um labirinto feito de madeirite - aqueles tapumes de obra de cor magenta. Os leões descem e surgem pelos corredores do labirinto. Quando eu os encaro, eles param, como estátuas, mas se tento fugir, eles avançam...

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Ondas

Estou com uma amiga no pilotis do último prédio da Delfim Moreira, em frente a Praia do Leblon. Olhando à esquerda em direção ao Arpoador avisto ao largo grandes ondulações vindo do mar. Elas se transformam em gigantescas ondas de 30 metros ou mais. São monstruosas. O céu está cinzento e o mar também. As ondas se chocam com os prédios da orla de Ipanema, destruindo-os um a um. O fluxo da água vem em direção ao Leblon, numa correnteza que arrasta gente, carros e tudo o mais pelo caminho. A torrente de água em si é apavorante e se aproxima. Corremos até às escadas do prédio e subimos para o terraço, buscando abrigo. Lá de cima vemos que a água escoou e faz sol. Mas as ruas estão desertas. Minha amiga quer ver de perto o que ocorreu e eu a sigo. Andamos pela Delfim Moreira em direção a Ipanema. Aparentemente tudo voltou ao normal e as pessoas voltam aos seus afazeres. Então avistamos uma outra onda, a maior de todas, que vai se formando há alguma distancia da costa. Ela tem tamanho suficiente para engolir o bairro inteiro. Corremos desesperados para fora do seu alcance, mas parece que a fuga será em vão...

quarta-feira, novembro 30, 2005

Tem um bebê sentado no chão com a minha mãe. Não se parece comigo, mas sei que sou eu.
Com a ajuda de pequenas peças educativas e alguns cartões, ela ensina ao bebê (eu) algumas palavras e o nome das cores.
Ela vibra quando ele aponta para um cubo preto e diz "preto".
Ele vibra com a alegria dela e bate palmas (aquelas palminhas tortas de bebê).

terça-feira, novembro 29, 2005

A despedida

Estou fugindo, a pé, de antigas namoradas e antigos casos amorosos, que me perseguem, me assediam e reclamam da minha ausência. Sigo então numa viagem, de táxi, até chegar a um ponto muito longe da cidade, numa região mais simples e rural, onde encontramos uma casinha. Neste momento entramos eu e ela na casa, sozinhos. Lá dentro, na casa mal iluminada, vemos outras pessoas que nos recebem no corredor e fazem ar grave, de profundo mistério e pesar sobre o que está ocorrendo. Entramos num quarto e vemos a mãe, que estava morrendo e precisava se despedir da filha. Chegamos até ela na beira da cama. A filha se debruça e a abraça. A mãe, deitada, me olha fixa, serenamente, e pede que eu as deixe sozinhas.

A herança

Era dia do meu aniversário. Saí com meus irmãos e alguns amigos para comprar bebidas para a comemoração. Em dado momento estamos reunidos dentro do Jardim Botânico, sob as árvores, conversando e bebendo, quando aparece meu pai, meio constrangido, meio nos constrangendo. Diz que sabe que "errou com a gente"... pede desculpas pelo que fez mas diz que sempre pensou no nosso bem estar material. Entrega a cada um de nós, entre os irmãos, "a sua parte da herança, um cheque de 10.000 dólares"... Eu me sinto muito mal com aquilo, penso em tudo o que aconteceu e choro. Meu irmão menor vem então me abraçar e diz que não é certo eu sofrer justo no dia do meu aniversário.

quinta-feira, novembro 24, 2005

E aí, Seu Papa? Belê?

Olha a bananosa em que a revista me colocou: o papa Bento 16 vem ao Brasil (vai ficar num lugar chamado "Vaticano" – acho que eles arrumam um Vaticano em todo lugar que vão) e eu fui convocado para entrevistá-lo. Será uma individual, mas eu terei apenas 15 segundos para falar com Sua Santidade. Aliás, agora eu estou no Google pesquisando pronomes de tratamento para falar com ele – oras, eu chamo o papa de quê? De "Sua Santidade" mesmo?

Outra coisa: será que eu serei obrigado pelo protocolo a me ajoelhar e beijar o anel papal, mesmo não sendo católico? Essa possibilidade me deixa desconfortável.

(alguém usou o meu computador e acessou o Google na versão em chinês, ou árabe, e agora eu não consigo trocar pelo alfabeto que eu entendo, olha só que bosta!)

Falar sobre o quê com o papa, e em 15 segundos? Alguém lê meus pensamentos e grita do fundo da redação: "Fala de xenofobiaaaaa!!!!" Fico tentando lembrar de alguma passagem bíblica que fale da aversão ao estrangeiro, um gancho pra tocar no assunto. Que repórter de merda que eu sou...

Esse papa tem uma excentridade: só fala com gente vestida de papa. Me arrumaram uma fantasia papal ridícula, dessas que vêm prontas, um kit da Casa Turuna (tem solidéu e tudo). Tô mais parecido com um enfermeiro que com o Santo Padre.

Olho pro relógio: estou atrasado pra entrevista. Desço correndo (só então eu percebo que estou em São Paulo), faço sinal prum táxi, entro e grito pro motorista:

TOCA RÁPIDO PRO VATICANO!!!

terça-feira, novembro 22, 2005

Beijo-a meio que à força, mas ela acaba cedendo quando nossas línguas se juntam. Ela é doce e serena, bem diferente da imagem que criou pra si mesma em seus livros e escritos. Entramos na casa e começamos a trepar no sofá da sala. Ela não é mais ela, mas uma outra que não vejo mais. “A boa foda, como nos velhos tempos...”, eu penso. Somos interrompidos por alguém que desce as escadas. Começamos a nos vestir com pressa. É o meu pai. Vem me apresentar um amigo gringo e me pede um favor: que eu escreva umas 20 linhas pro cara explicando pra ele o que é o chá-chá-chá (o gringo vai precisar desse “glossário” pra uma ilustração que vai publicar numa revista européia). Os dois saem da sala, e eu fico em dúvida: “Chá-chá-chá, xaxaxá ou tcha-tcha-tcha?” Ela me dá um beijinho. “Merda, odeio ser interrompido desse jeito”, digo. “Saudade de morar sozinho...” Ela ri e me mostra um pager: “Usava isso aqui quando dividia apê com fulana. Quem chegasse em casa primeiro acompanhada avisava a outra”, e começou a falar de suas aventuras sexuais e as da amiga (que sossegou depois de encontrar uma bailarina por quem se apaixonou).

segunda-feira, novembro 21, 2005

Bodas

O amigo vai casar. Alguns familiares e uns poucos camaradas estão acampados no Vale da Morte, onde vai ser realizada a cerimônia.

Mas não é o Vale da Morte californiano.

É um outro, um vale qualquer numa cidadezinha qualquer no sul (acho que é isso) do Brasil. Faz muito frio e tudo à nossa volta está coberto por um denso nevoeiro (difícil arriscar que horas são).

Próximo de onde estamos acampados há uma pousada. É lá que vamos tomar banho. Cobram caro os malandros: R$ 1 por minuto de chuveiro quente.

Acho um absurdo, mas compro R$ 10 de banho, que acabam logo (sou avisado por uma porrada de água gelada nas costas que me deixa ainda mais puto).

O banheiro é enorme: além do chuveiro (na verdade são três duchas que se cruzam a dois metros do chão, num box grande em que daria pra fazer uma festinha), há holofotes e um moderno sistema de som por toda parte (enrolado na toalha, tô tentando sintonizar algo que preste nas rádios oferecidas).

– Na verdade isso aqui é um estúdio de fotografia – me explica um funcionário da pousada.

Meu amigo (o noivo) me convoca para uma missão: ele quer comprar um cachorro. Entra numa casa ao lado da pousada e sai com um filhote (cocker? labrador? que porra é essa?) de pêlo castanho.

Rindo, pergunto a ele: "Cara, ou você casa ou compra um cachorro, né?"

sexta-feira, novembro 18, 2005

Três pra voltar

(1) Andando na rua, procuro não sei o quê no bolso da calça quando encontro um punhado de pequenas pedrinhas transparentes. "São diamantes", me diz uma mulher, que pára pra conversar comigo. Ela me arrasta até uma loja, pede que eu coloque as pedras sobre o balcão e começa a avaliá-las contra a luz. "Posso te pagar US$ 30 mil por elas. Valem mais, só que você vai ter problemas pra vendê-las por aí..." Pego o cartão dela e digo que vou ligar depois. Olho os classificados. "Quanto custa um apê em Copacabana?", eu penso. "Por quanto eu vou querer negociar esses diamantes, mesmo correndo riscos?"

(2) Minha mãe dizendo que detesta as almofadas do sofá da sala. Pede que eu dê cabo delas. Não penso duas vezes: levo tudo pro pátio do prédio e explodo as almofadas.

(3) Cheguei aqui no banco de trás do carro de um homem que veio cobrar uma dívida de bois com um fazendeiro. Estrada de terra, cu do mundo, nem sei como isso começou, como peguei essa carona. O cara estaciona o carro ao lado da porteira e entra. Fico esperando na estrada vazia, do lado de fora da fazenda. Um cabrtinho preso a uma árvore por uma corda começa a gritar. Me ajoelho para acarinhá-lo, ele se acalma. Estranho como o cabritinho fica hipnotizado pelo ir e vir das formigas no caule da árvore. Ele tem uns olhos grandes e amarelados.

quinta-feira, maio 26, 2005

Plantas

Estou com o querido mais uma vez caminhando e conversando. A gente resolve passar na casa de um casal de amigos para bater um papo ou ver como vão as coisas. Eles são recém casados...
Ao chegar em frente à casa, tocamos a campainha e eles não atendem. Eles não estão em casa.
Mas, logo na frente, existe uma espécie de jardim, cheio de plantas. Fico feliz em ver todas crescendo e percebo que entre elas estão algumas plantas que eu doei durante a minha mudança de casa, depois do fim do meu casório.
Comento com o querido o quanto eu fico feliz por ver todas as plantas crescendo e digo mais: invejo o quanto o casal sabe administrar bem o cultivo das plantas todas (o casamento).

quinta-feira, abril 28, 2005

Mão dupla

Então, na mesa, entre outras pessoas, ela me diz: - Tenho que te contar um segredo... é um pequeno problema nas mãos... tenho uma pequena mão ligada a uma das minhas mãos... quero dizer, afinal, tenho dez dedos nessa mesma mão.... Ela mostra a mão que contém uma outra pequena mão. Elas se articulam em várias direções... o minúsculo pulso gira, independente, e os pequenos dedos se retorcem... Ela me olha, sorri e diz: - Fofo isso, né?

segunda-feira, abril 18, 2005

Beijos Roubados

Recebo um oi muito peculiar do belga, dono da ong em que estagiei. Ele me abraça com aquele sorriso estranho e, em vez de me dar dois estalos nas bochecas, me arranca um beijo suculento de língua, na sala que estava vazia. Fico assustada e nem sei o que pensar direito. Acho aquilo tudo esplêndido e, espantada, continuo a beijá-lo loucamente. Ficamos por aí. Saio correndo pela rua para chegar ao aeorporto a tempo de pegar o avião, conseguido na última hora. Nada demais durante o vôo, a não ser a grande expectativa que, como o habitual, faz o coração palpitar desesperadamente, como se fosse pular pela boca. Um terror. Chego ao local em que deveria estar há mais de uma hora. É uma loja de perfumes. Dessas bem bonitas, cleans e com um requinte moderno. Sou recebida por uma belíssima mulher, que tem os olhos maquiados com um azul incrível. Digo oi e ela faz as honras da casa me recebendo com um beijo macio, soboros e embriagante. Não vejo por quê não e passo a adorar aquele beijo de mulher. Língua macia, controlada. Lábios pequenos e carnudos. Tempo de abertura certo e sentimento trocado enquanto as salivas se misturam. Quando ela percebe que gosto, tenta se recompor e pára. Me abraça e pede que eu entre na loja. Para ver a grande novidade da noite. Para isso...

terça-feira, abril 12, 2005

O quintal da casa da minha avó está coberto de cobras. Um homem se abaixa e encosta em uma delas, que se enrola com força no braço dele. O homem olha o braço com calma e caminha até uma goiabeira. Encosta o braço com a cobra em um dos galhos, e a cobra passa do braço à goiabeira, se enroscando nela com força.
uma festa rola lá embaixo. eu digo a alguém que preciso subir pra trocar de roupa. subo uma apertada escadinha de caracol q me leva aonde eu preciso. chego lá. encontro um rapaz. nunca o tinha visto, mas sabia que ele era conhecido. um cara bonito, daqueles q combinam a calça com o sapato. não é necessariamente o meu tipo de homem. não era... pois começamos a nos agarrar e quando dei por mim já estávamos transando rápida e loucamente. não sei o que aconteceu, mas junto com o gozo saiu a última gota de qualquer sentimento daquele homem. ficou frio. o chão sujo. fiz menção para que ele pegasse um pano e limpasse o chão. ele já se esquivava. limpei o chão.

sexta-feira, abril 08, 2005

Trechos

Temos muita fome. Minha namorada diz que vai procurar comida e segue numa direção. Vou em outra direção procurar comida, também. Voltamos a nos encontrar. Ela mostra satisfeita o que trouxe para o almoço: dois braços decepados logo abaixo do cotovelo. Uma das mãos não tem um dos dedos mínimos. Ela me diz que podemos espetá-los e assar numa fogueira.

Antigos colegas de trabalho, velhos amigos... Estamos num deserto. É necessário fazer uma sinalização especial em postes que estão fincados na areia, aqui e ali, e que servem para indicar áreas onde se pode encontrar água, algum conforto, comunicação, etc. Eu sugiro envolver parte dos postes com adesivos pretos e amarelos reflexivos. Todos discordam da solução e afastam-se de mim chorando e reclamando em uníssono que "quebra a proporção! quebra a proporção! quebra a proporção!..."

Faculdade de arquitetura. Chego atrasado na aula. Para meu desespero descubro que é dia de prova e eu nem sei a matéria... De repente emputeço e digo pra mim mesmo que aquilo é um absurdo pois não estou mais fazendo aquela faculdade... Minha vida é outra agora. Olho pela janela e vejo aquele céu vermelho das tardes no Fundão. Estou atrasado, é melhor me apressar. Atravesso a janela e saio de lá voando. Vejo do alto o estacionamento, os carros... as pessoas abaixo olham para mim, assombradas: como é que ele faz isso?

Estamos na sala de jantar na casa de meus primos, onde já morei. Digo a um deles que ele deveria criar uma rádio pirata para divulgar sua vasta coleção de heavy metal e rock progressivo. Digo a ele que hoje em dia não é preciso muito equipamento para transmitir em FM. Volto pro meu quarto satisfeito com meu incentivo. Tenho vários e diferentes anéis nos dedos. Entro no quarto e encontro todo o submundo alternativo dessa terra. Souberam dos meus ideais e se reuniram lá. Bêbados, malucos, poetas, easy riders, vagabundos... Fumam, bebem, jogam sinuca e baralho. Parecem aqueles seres perdidos na vida. A turma de Bukowski e Kerouac em peso... Meu quarto parece um daqueles cantos de bar pé-sujo de filme americano. Encontro uma amiga entre eles. Ela pinta um quadro e têm uma lágrima negra que desce sinuosamente no rosto.

Agora é no antigo atelier. Encontro uma turma de amigos que nunca pertenceram a aquele lugar. Eles descascaram e esculpiram as paredes internas da casa de tal forma, que criaram camadas transparentes, tais como caixas de acrílico que se sobrepõem. Estão felizes com a criação. Eu digo a eles: Ah, vocês são discípulos de Venoza...

terça-feira, abril 05, 2005

Nos dois lugares

Fumo um, já estou atrasada e tenho que pegar um ônibus, desses novos com catraca eletrônica, para encontrar a ruiva de São Paulo no RioSul. O ônibus, como de costume, segue pela Bernadino de Campos alucinadamente. O motorista fuma um cigarro e conversa alto com o cobrador. Na curva próximo à Álvaro Ramos, percebo o quanto estou chapada e lembro-me de onde estou. É no Rio, sem dúvida. Mas tudo está tão confuso... Quase bato a cabeça na janela que não abre embaixo quando o ônibus laranja faz o retorno. Para onde?, me pergunto. Lembro que vou encontrar aquele amor da vida e não a ruiva de São Paulo. Ah, de ruiva tem também a moça de Niterói, que adora comprar na Augusta. Ai, os alucinógenos trazem isso mesmo: Uma confusão desesperadora e sem fim, que você nunca sabe como sair, mas mantém a calma até a onda passar. Antes mesmo de chegar no shopping, a colega de Padre Miguel me mostra onde fica a pequena editora da Presidente Vargas: na João Moura, numa casa bem de esquina. Confuso. Fico feliz em saber onde é, e olho feliz mais uma vez para o céu sempre cinza, sempre da mesma cor, mudando só os tons com o passar das horas do dia.Vejo ele lindo e majestoso, indo ao meu encontro, sem saber que está sendo observado. Segue pelo Aterro até chegar no BH, da Augusta. Acelero o passo para acabar com a brincadeira de ver sem ser vista e ele vira mostrando o lindo bigode. Sorrio e ouço um alarme de celular real qualquer.

sexta-feira, março 18, 2005

Estou na praia, qualquer praia, e faz calor. Quero andar pela praia e descobrir onde estou, que praia é essa, mas o calor é mais forte e não consigo levantar da areia. Na beira do mar, um casal anda devagar. Eles não parecem sentir calor, nem cansaço. E sabem onde estão. Eu não. Acordo com vontade de viajar.

quinta-feira, março 17, 2005

Cor de café com leite

Estou de frente para uma mulher que, no sonho, é a minha terapeuta. Nós
dois em pé. Entre a gente, uma janela (dessas de alumínio), fechada, através
da qual conversamos. "Ponha a mão no meu peito", ela me diz. Eu coloco.
"Não: sobre o meu peito", ela corrige, levantando a camisa e mostrando os
seios.
Minhas mãos e braços travam, ficam paralizadas, como nos sonhos em que
queremos gritar e correr mas não conseguimos (apesar disso, fico de pau duro
com aqueles peitos). "Viu?", eu falo pra ela. "É assim que acontece com
todos os meus desejos: não sei lidar com eles".
Ela então sai de onde está e vem para o meu lado. Segura as minhas mãos
e as olha, dizendo: "Você tem que aprender a mexer melhor com a vida..."
De uma panela, a mulher retira uma bola feita com uma espécie de massa,
quente e cor de café com leite. Parece aquelas bolas de látex que os
seringueiros fazem (tem o tamanho de um lençol embolado).
A mulher manipula aquilo um pouco, como massa de pão, e passa às minhas
mãos. Começo a brincar com a bola de massa, jogando-a de uma mão à outra,
enfiando nela os dedos, experimentando a textura, o calor, até deixar de
pensar em tudo: só existimos eu e o meu novo brinquedo.
"Agora tenta de novo", diz a mulher, já de volta ao outro lado da
janela, que agora está aberta. Ela tem um dos seios do lado de fora da
camisa. Largo a bola de massa e, lentamente, vou levando minha mão até ela,
toco-lhe o peito, aperto, corro o mamilo entre dois dedos.
Ela dá um passo atrás, ofegante e com os olhos fechados (está
excitada). "Viu só?", ela diz, enquanto sorri e abaixa a blusa.

De fora

Estávamos em uma dessas datas de festividades.

Não sei bem quem estava no sonho. Lembro que minha mãe estava. E, incrivelmente, conseguia nutrir por ela um sentimento escroto, de raiva, ódio e vergonha. Do mesmo tipo que eu sentia quando eu tinha 13 anos e ela namorava um cara de 18. Bizarro.

Uma série de ações aconteceu e só depois me toquei que estava no infeliz trabalho que consegui no começo da minha estada aqui. Era naquele restaurante empetecado e over, que só mesmo gente daqui para gostar de gastar tanto dinheiro com tão pouco conteúdo. A comida de lá sempre foi quase ótima. Só que dessa vez era nojenta.

De repente, lembro do que venho sentindo nesses dias estranhos enquanto estou acordada, e quando viro para o lado vejo meu namorado alegre, sóbrio, com um cara lava, consciente e (in)feliz.

Ele estava com alguém. Não era eu, claro. Mas era alguém que eu nunca tinha visto pessoalmente... Adivinhem só... era Cléo Pires, a musa brasileira que ele adora não sei por quê.

De repente a possível comemoração comportada da data se torna um auê, tipo grego, ou seiláoquê.

Minha mãe começa a dançar com Glória Pires como se tivesse 15 anos, meu namorado acha tudo muito sempre divertido e eu passo a odiar tudo.

Aquele lugar em que estava, meu ex-chefe, meus antigos colegas de trabalho, uma mãe que não é possível que seja a minha, Cléo, Glória e o babaca que se tornou meu namorado diante de bundas, peitos e rostos bonitos.

Saio dali deixando meu drink pela metade, com um cigarro novo na boca e a estranha sensação de que tudo será diferente a partir dali. Sem ninguém.

quinta-feira, março 10, 2005

O mercador português

Estou na serra, em uma estrada entre as montanhas. À minha direita, acima, vejo uma mulher cair, com sua asa delta, sobre uma cachoeira. As águas desta cachoeira sobem a montanha, em vez de descerem. Na verdade a água quase não se move, apenas ondula, e eu vejo uma mancha vermelha e azul - a mulher e sua asa - dentro d'água. Surge um helicóptero sobrevoando a cachoeira. Eu estou nele agora. Vamos içar a mulher com um cabo. Conseguimos tirá-la dali. Ela desce do helicóptero no topo do morro e transforma-se em um mercador português, parece-me. Veste calças de veludo escuro, botas, camisa branca bordada, capa de couro e um chapéu emplumado. O acidente com a asa delta leva a uma descoberta. Lá um grupo familiar, composto de homens, mulheres e crianças, todos com cabeça em forma de paralelepípedo e topete ruivo alaranjado, brincam, correm e jogam bola. A mulher então diz para o grupo que quer comprar o terreno para construir nele alguma coisa. Eles se revoltam com a proposta e a expulsam dali. Ela foge, correndo morro abaixo. Eles a perseguem e atiram nela com uma arma cujos petardos, vejo de perto, giram em câmara lenta. São pequenos cubos plásticos cinzas, do tamanho de um dado. Há neles estranhos símbolos gravados e em seu conteúdo estão guardadas "coisas perigosas".

A hiena


Estamos em uma casa no campo. Vejo uma arara vermelha pousada em uma árvore e anuncio a sua presença. Agora um tucano. Depois um inhambu, escuro, de bico comprido. Estou animado com aquela fauna. Surgem meus dois gatos, eles têm em companhia seus filhotes: uma meia dúzia de cachorrinhos cinzas. Todos correm para um terreno baldio próximo. Nesse momento surge um grupo de hienas. O terreno baldio agora é uma savana africana. Temo pelos bichanos e vou em seu socorro. Todas as hienas fogem, mas uma delas se esconde dentro de uma casa, em estilo moderno, anos sessenta: concreto aparente, grandes painéis envidraçados, pilares cilíndricos, móveis de jacarandá... A hiena sai de dentro da casa usando uma máscara de ferro de gladiador e me enfrenta. Consigo alcançar um perfil de metal, afio uma ponta e faço uma lança. A hiena avança em minha direção... tento espetá-la, mas ela desvia e morde a minha perna. De novo, a hiena em posição de ataque, avança em minha direção e... záááásssss! Atravesso a sua barriga com a lança. Olho a lança atravessando o animal, morto. Espeto a lança no terreno para preparar um churrasco, de hiena.

O banquete

Meus colegas de trabalho e eu estamos na mansão do meu chefe, onde
ele e a mulher nos oferecem um banquete. Parece que o lugar dele (o do
chefe) está ameaçado na empresa (às vezes o chefe também tem
chefes...), e o jantar é a última oportunidade dele para mostrar-se
amistoso e generoso com a equipe, onde tem sérios problemas de
relacionamento com vários colaboradores.

O banquete, portanto, é uma cartada final para ele ficar no emprego.

O chefe está sentado na cabeceira, com a mulher à direita. As
demais pessoas se espalham pelas quase vinte cadeiras. Na outra
cabeceira, euzinho. O serviço começa, as pessoas interrompem a
conversa, o único barulho do lugar passa a ser o de talheres e copos,
em suave atrito com o mundo.

"Mas que vinho de merda!", diz uma colega minha. "É claro que você
ia servir esse vinho de merda pra gente, seu miserável! Aposto que tem
coisa bem melhor na tua adega, mas você acha que a gente merece isso.
Tem mesmo é que ser demitido". Minha colega joga o guardanapo sobre a
mesa e sai. Depois de um espanto geral, a atitude ganha adesões, e
todos se mandam. Meu chefe e a mulher estão pálidos. "É. Agora já
era...", ele diz à esposa, dando-lhe um beijinho na testa e saindo com
ela da sala de jantar, de mãos dadas.

Estou sozinho na mesa. "Dane-se!", eu penso, enquanto vou enchendo
novamente o meu prato, que delícia de comida.

sonho de 07 para 08/03

Sem medo, vamoslá...

Mal fechei os olhos, caí no underground de mais um sonho sem nexo e ao mesmo tempo com muito material para ser destrinchado em algumas sessões de análise.

Não eram mais os rotineiros tiroteios na favela, dos quais vinha sendo vítima nas últimas noites de pesadelo. Também não se tratava de uma morte diferenciada e sentida por mim. Era, de fato, um sonho...

E que sonho. Talvez por causa das privações dos últimos tempos, sonhei com coisas realmente boas, se é que alguém pode definir isso.

Estava em uma casa enorme. Maior que qualquer outra em que eu já tenha dormido. Maior que a dos pais do Carlos, na Gávea, maior da qual eu morava na infância com toda a família, maior do que tudo.

E como sempre, não sabia direito quem estava comigo, quem não estava e quem teoricamente era para estar. Também não estava muito definido no sonho o que tinha me levado àquela situação, àquela casa, com aquelas pessoas.

O fato é que nessa tal mansão estavam todos os que conheci nesse último ano. Todas as pessoas do Rio com quem já tive ótimos momentos, e até as que eu mal cheguei a conhecer. Por sorte não estava ninguém que me desagrade. Mas, curiosamente, não estava ninguém com quem eu fosse muito íntimo, tipo o meu namorado. Sabia da presença do Carlos, mas ela não tinha tanto peso assim e raramente eu cruzava com o rosto dele ou até com a sensação de ter ele por perto.

Mais nitidamente, lembro-me que estava na casa um grande amigo, Cid, junto com Fábio e seus grandes amigos que eu considero muito e já até adoro. Acho que era o Marcelo e namorada, o tal do Dudu que eu vi uma única vez na vida, amigas do Fábio da época de faculdade, a francesa do Cid, e a maior pegadinha de todos os tempos, o tal do Nuno, ou Bruno, ou Virgílio, what ever.

A mansão à la “The Dreamers”, do Bertolucci, estava repleta das melhores coisas do mundo. Ou o que, para a minha micro noção de mundo, são as melhores coisas do mundo. Estou falando de comida, claro. Queijos, vinhos, chocolates e tantas coisas boas que mordíamos um pedaço qualquer e jogávamos o resto pelo chão.

Cada um fazia uma atividade diferente na casa. Uns viam televisão, outros bebiam e conversavam, outros rondavam pela casa, mas nada muito intrigante acontecia.

Lembro-me apenas no final – sim, porque sonho tem final, já que essa foi a última sensação que tive antes de abrir os olhos para olhar o despertador – de estar bem à la “Os Sonhadores”, sensualíssima, amorosa e nua com um dos amigos do Fábio e do Cid, vendo televisão, tomando champanhe e dando risadas. Mas não era nada muito sexual. Apenas vontade ficar perto, trocar carinho e sentir.

Agora me diz o que consigo tirar disso? Acho que nada.

terça-feira, março 01, 2005

Espanha-sítio-Espanha

Encontro um amigo que começa a me contar sobre sua vida na Espanha, país de onde ele acaba de voltar – viveu lá o último ano. A cidade onde ele morava era pequena. "Mas perto de Madri, Barcelona, Sevilha?...", eu pergunto. "Não, parecia uma cidade do interior do Espírito Santo", ele explica. Começo então a ver o dia-a-dia por lá – uma rotina que na verdade se resumia a não fazer nada. Meu amigo ficava zanzando pela cidadela, sem trabalhar, apenas vadeando com as economias que levara. Conta que tinha uma inimizade no lugar, " com um judeu" (penso em como é típico desse meu amigo ressaltar se as pessoas são judias, pretas, ou qualquer coisa). E então passo a ver um grupo de homens judeus – judeus ortodoxos, com cabelos longos nas têmporas, chapeús e roupas escuras – andando numa floresta, que se adensa conforme eles seguem em frente. Na verdade, são dois clãs de famílias judias, cujos patriarcas conversam, uma conversa de acerto de contas, para decretar a paz entre as duas casas, com nos filmes sobre a máfia.A uma certa altura da estrada, eles interrompem a caminhada para observar um gravador de rolo, daqueles antigos, que está semi-enterrado na margem do caminho. Seguem em frente, e é então que eu pressinto que haverá traição entre eles: um dos grupos vai puxar suas armas numa clareira mais à frente e atacar. Aí eu entro na cena, que até então apenas via (mas eles não me enxergam): vou espalhando câmeras de cinema ao longo da estrada para filmar a "seqüência da traição". Digo os cortes de imagem que vou querer, os planos etc. – e os homens seguem conversando, como atores que ignorassem o diretor.Agora estou na porta de um sítio bem pobre, numa cidade do interior. É ali que moro com meus pais. Um primo meu chega, dirigindo um caminhão-tanque, como esses que transportam combustível. Entra na casinha e volta. Nos despedimos. Comento, junto com uma prima que também participa da conversa, que um dos pneus do caminhão está furado, ou vazio. Ele diz que já havia notado, que veio com ele daquele jeito, e voltaria assim mesmo. Liga o motor. Quando começa a sair, noto que há um prato de louça da minha mãe sobre o teto do caminhão (acho que meu primo comeu e esqueceu ali) e corro para segurar o prato, que vai se estatelar no chão. Faço sinais na frente do caminhão, meu primo freia bruscamente e derrapa na estrada de terra, indo parar numa cerca. Nisso, o prato cai e quebra, e seus cacos pulam no ar, voltando sobre nossas cabeças como uma enorme tempestade. Os pedacinhos começam a entrar na minha pele, grudam com força no meu couro cabeludo e em todo o resto do corpo. Vou para a casa coberto de cacos, blasfemando alguma coisa, e entro no chuveiro para tomar um banho.De volta à Espanha. Meu amigo mostra a casa onde morava. No quintal da residência vizinha – localizada uns dez metros abaixo de onde estamos – há um pastor alemão. Alguém lhe atira uma bola vermelha de plástico, que ele apanha. A bola é tirada dele por um outro cachorro, que é roubado por outro cachorro, e este por outro, até o quintal ficar tomado por uns 30 animais, brigando pela bola. Chega então um sujeito grande e musculoso, de cabeça raspada, com cara de pitboy. Ele pega a bola, e os cães fogem com medo. O homem sai da casa, fecha o portão e larga a bola, com desprezo. Vai entrar num carro (pequeno demais pra ele) quando vê passar um rapaz com um cão na corrente. O grandalhão resolve mexer com o rapaz, que não responde às provocações. O fortão entra no carro e começa a manobrá-lo, até que o rapaz decide reagir, prendendo o carro na vaga. Meu amigo – que agora não é mais o meu amigo, mas um outro primo (e não o do caminhão...) – sai correndo: "Vamos lá ajudar o rapaz!", ele grita.Logo há quatro homens bloquando a saída do carro. O fortão acelera, os pneus cantam. Observo a cena de perto, decidido a me entrometer apenas quando o motorista sair do carro (mas penso em apartar a briga inevitável, não em lutar). O cara acelera mais, parece que os quatro vão perder a parada. O carro começa a sair do lugar... Decido então ajudar os rapazes. E pelo jeito eu sou a força que faltava ao grupo: o carro estanca novamente, e aí começa a se chocar com o veículo que está na vaga da frente. Prendemos ele de vez.O grandão desliga o motor e sai, humilhado. Não abre a boca, porque sabe que vai levar uma surra se falar alguma coisa. Pelo menos aqui esse imbecil não vai mais cantar de galo.

Mousse de Dollar

(...) Vamos almoçar em um restaurante. Agora penso que o lugar é semelhante a uma casa que havia numa rua paralela à nossa antiga casa em Itaipava, em frente ao Grande Hotel de Itaipava, onde moravam alguns moleques conhecidos da gente, isto quando eu tinha uns 9 ou 10 anos de idade. Mas eu já era adulto no sonho. Estávamos numa mesa grande e oval, em um canto à entrada do lugar. Eu e cinco mulheres. Quatro delas desconhecidas, olhos claros, muito brancas, umas ruivas, outras louras, e entre elas minha irmã, que é morena. O garçon traz, esporadicamente, à mesa, bandejas com acepipes de formas e nomes incompreensíveis, assim como "zuíchteng" ou "tufflone"... Mas parecem apetitosos. São como bifes, com várias camadas, intercaladas com diversos ingredientes e molhos variados... É hora de pagar a conta. Todos devem contas de quase 200 reais, mas a minha é de 93.400 reais. Instigado pelos demais vou até o gerente reclamar do preço. Digo a ele que não pago contas assim nem quando vou a Paris (eu nunca fui a Paris). Ele me explica, então, que o que pesou na conta foi a mousse de dollar, que vinha a ser uma mousse feita com notas de 100 dólares. Ele me dá a receita: Pegue um maço de notas de 100 dolares, jogue no liquidificador junto com um pacote de gelatina, acrescente leite, ovos, farinha, etc (...)

"Não perca as emoções finais de..."

Sonhei com o último capítulo de uma novela em que Cláudia Abreu era a protagonista. Ela fazia o papel de uma golpista que inventava uma personalidade para conquistar o coração de Dan Stulbach, um milionário bonzinho com quem ela acabou casando e tenho filhinhos. O parceiro de Cláudia Abreu nesses planos era o Fábio Assunção, defendendo um personagem igualmente canalha (só agora me dou conta que os dois "vilões carismáticos" eram uma reedição da dupla Renato Mendes & Laura, de "Celebridade").No último capítulo a situação era a seguinte: Cláudia, já casada e feliz com Dan Stulbach, está em casa, uma mansão meio hippie na zona sul do Rio, terminando de arrumar as malas. O casal está de mudança para a França – a família toda vai partir dali a três horas. Para casar com Dan, como já disse, Cláudia aplicou um golpe, inventando uma personagem boazinha, órfã. A idéia dela e do parceiro (e amante) Fábio Assunção era pegar a grana de Dan após o casamento, e deixar o cara na rua da amargura, com cara de tacho.Só que um dia – quando Cláudia e Dan já estavam casados – ela levou um soco de um dentista (outro cúmplice da dupla na mentira) que queria ir pra cama com ela (uma forma como ela "pagava" os seus favores, falsificações etc...) Com o soco e a queda no chão, Cláudia teve um crise de amnésia. Quando voltou a si, havia esquecido de sua personalidade má, incorporando a que inventara, a da menina boazinha.Fábio Assunção entrou em desespero, pois assim ele estava fora do golpe (ela nem lembrava mais quem era ele) e da vida dela... A cena principal deste último capítulio era a chegada do Fábio à casa de Cláudia, onde ele revelaria ao marido dela toda a história. Um último lance desesperado do vilão na tentativa de não perder sua amada, mesmo que isso custasse todo o dinheiro roubado por eles com o plano.E isso faltando três horas para o avião decolar rumo à França...Só que aí 0 meu celular tocou, eu acordei e perdi as cenas finais da novela.

Cascudos em James Bond

(...) Estou sentado em um auditório pequeno na expectativa do início de alguma palestra, ao lado de meu pai. O auditório parece com aquele do MAM, mas as poltronas são de couro avermelhado. Não estou nem à frente nem ao fundo. Estou próximo ao centro e à esquerda na platéia. Entre os presentes, mas afastados de mim estão meus ex-colegas de atelier. Enquanto a apresentação não começa noto que um sujeito duas ou três fileiras atrás e um pouco à minha direita começa a falar alguma coisa em tom provocador em direção a nós dois. Ele diz coisas dasabonadoras a respeito de meu pai. Diz que ele é um sujeito à toa, que não vale nada... Vai além e chama meu pai de mulherzinha. Eu viro e consigo enxergar entre as pessoas que o tal atrevido é o James Bond, o próprio 007, encarnado ali pelo Roger Moore. Ele está trajando um summer, aquele smoking branco com faixa e gravata borboleta, e continua a dizer desaforos, rindo e debochando sem parar. Eu levanto e o intimo a calar a boca. Ele continua os impropérios, porém. Então parto pra cima dele entre as poltronas. Ele some. Vejo que ele se arrasta sorrateiramente por entre as poltronas. Ele pretende me pegar pelo pé ou dar um bote traiçoeiro... Num instante eu o vejo e assim que ele passa eu aplico um forte cascudo em sua cabeça. Ele reclama do golpe mas some de novo. Nesta altura não há mais ninguém no auditório. Apenas nós dois, mas não consigo mais vê-lo. (...)

Buracos e Túneis

Meu pai e eu estamos no quintal da casa de um primo dele, fechando – com pás e enxadas – os buracos que um animal (cachorro ou coelho) vai fazendo. A cada buraco que tapamos, o bicho cava um novo, até que desiste e some, deixando que terminemos nosso trabalho. Vou lavar louça numa pia que fica na varanda de trás da casa, onde começa o quintal.
Saio da casa e agora estou na rua, que fica numa espécie de subúrbio com praia – ou uma cidade decadente da Região dos Lagos. No conjunto habitacional está acontecendo um show na rua para milhares de pessoas, a maioria jovens. Não consigo ver o palco. Estou lá atrás, onde a multidão já se dispersa. Andando de bicicleta, um menino de seus 14 anos acha uma pistola no chão, um revólver 38, e começa a atirar para o alto. Pedala em círculos, atira e ri. Ninguém se abala. Meu pai aparece no portão para ver o que está acontecendo. Estamos os dois de vestidos de branco (eu de calça e ele de bermuda). Decido avisar à produção do show, feita por um amigo, sobre o que está acontecendo (os tiros na rua). Encontro-o no caminho, e ele resmunga dos piercings que acabou de pôr nos dois mamilos: “Droga! Estão doendo, e eu queria uma corrente unindo os dois”.
Ele some e eu volto a procurá-lo. Entro num jogo de túneis (como nos vestiários dos estádios) que vai dar nos camarins. Digo aos seguranças que procuro fulano, e eles me liberam. No caminho, ainda no túnel, há o portão de uma mansão, onde mora o maior empresário da noite carioca. Um grupo de entregadores de pizza quer entrar para mostrar a ele (o empresário) um número musical. Os seguranças liberam, e as motos entram. A entrada da casa também é um corredor, com paredes brancas luz fria como no resto dos túneis – só que estas são cobertas por desenhos feitos por crianças.
No fim do corredor há uma escada, dando no hall dos camarins. Subo e escuto a voz de um outro amigo, que ri e fala no celular.

Galinhas baianas

(18/19-01-2005) Estou viajando pelo litoral da Bahia. Não é uma Bahia ensolarada nem urbana, mas selvagem e cinzenta, típica dos invernos baianos. Viajo de carro em uma estrada no litoral com um grupo de pessoas, mas só me lembro de um amigo, imensamente gordo no sonho. Agora estou na praia olhando para um duna de areia, uma falésia, no pé da qual vejo este amigo, deitado de bruços, achatando e escondendo quase integralmente com o corpo obeso, uma menina pequena e delicada -- uma prostituta, eu pensei. Pareceu-me que aquilo era um grande feito. Na verdade toda a cena parece uma pintura. Não há movimento, está tudo parado: A falésia, meu amigo, a menina sob ele. Eu de fato pego a cena com as mãos. É uma pequena pintura agora nas minhas mãos. Então a pintura torna-se página de revista. A imagem citada agora está acima e à esquerda da página. À direita dela há um texto: Lorem ipsum dolor sit amet. Continuo a viajar e me deparo com um imenso declive de areia, com quase 90º de inclinação e 500 m de extensão até abaixo, à beira mar... Deslizo naquela encosta de areia que desemboca naquele turbilhão de águas. Vejo o fluxo e o refluxo das ondas como uma sequência de fotos aéreas feitas por satélite, semelhantes aos registros feitos do grande Tsunami na Ásia. Cair ali será fatal. Mas não há como sair da rampa. A velocidade aumenta a medida que deslizo. Consigo pular para uma borda e escapo da morte. Estamos de novo na estrada. Todos têm fome. Alguém sugere um lugar que vende galinhas vivas. Seguimos para este local. O estabelecimento fica numa casa antiga e chama-se Agro-Ace. Vejo isto num letreiro. Está repleto de galinhas vermelhas, amarelas e azuis, soltas, passeando. As galinhas fazem parte de alguma performance artística. Então eu e meu amigo começamos a discutir sobre o que vamos comer. Ele é ríspido e acabamos brigando. Eu aplico nele um soco, em câmera lenta. Olho para a minha mão direita e vejo nela um Band-aid nos dedos máximo e indicador.

Coral de cabeça pra baixo.

Estou em um grupo com um ex-colega de atelier além de algumas meninas que julguei "antenadas" mas que eram desconhecidas, em Minas Gerais, em uma casa grande, cheia de aposentos e meio sombria. Fui convidado - parece que meu colega tinha alguma ligação anterior com o grupo - para fazer parte de um coral que entoaria canções regionais não sei de onde, em determinado show. As pessoas cantariam alinhadas, lado a lado, mas todas de cabeça pra baixo. Havia um tipo de cortina ou janela, de modo que o corpo das pessoas não ficasse muito visível para a platéia, apenas os rostos. Lado a lado e de cabeça pra baixo. Eu estava animado a participar. Súbito alguém determina que seriam dois grupos a cantar: Um formado pela maioria e o outro, um dueto. E eu ficaria de fora... Fiquei muito decepcionado diante disso. Imediatamente depois soube que meu colega não iria mais participar do coral, desta vez porque não queria se expor naquela empreitada, uma vez que "tinha já um nome artístico à zelar...". Eu fiquei duplamente constrangido. Fiquei pensando, no sonho, se tenho me envolvido com as coisas certas.
Estou fazendo a cobertura de alguma reunião chatíssima, pessoas de terno e gravata se acotovelando por espaço numa mesa – mais que isso: elas querem é sair na foto. Anoto seus nomes num bloco, para a legenda das fotos, e eis que chega o meu chefe dizendo que está tudo errado, que os nomes não são aqueles! "Que trabalho inútil o meu..."Ainda naquela noite, diz o editor, eu viajo pra Chicago. Pergunta se a minha documentação está em dia, eu digo que sim, e ele me libera pra que eu passe em casa pra arrumar a mala. "É um trabalho chato e inútil", eu penso, "mas pelo menos eu tenho a chance de conhecer Chicago!".Em casa – que não é a minha casa – olho para o céu já escuro, pela janela da área de serviço, e vejo quatro luas cheias, meio que escondidas pela noite nublada. Uma lua em cada ponto cardeal do céu. "Vai ser bom ver isso do avião, por sobre as nuvens".Na rua, em frente ao prédio, onde já estou com a minha mala, duas mulheres discutem qualquer coisa sobre um Chevette estacionado na calçada. Acho que falam da urgência de jogar aquele carro no lixo e comprar um outro. Alguns quarteirões à frente, numa viela imunda onde ainda faz dia, um homem vende livros e cacarecos velhos, como nas calçadas da Glória. As coisas estão expostas em prateleiras, arrumadas em corredores, como numa loja. Páro pra ver uns discos, até que esbarro num livro aberto, uma página com uma foto do Lulu Santos, ainda muito jovem, cercado por livros, cacarecos, copos sujos, cinzeiros cheios – exatamente como naquele cenário onde eu estava.Na página, alguma coisa sobre um filme dirigido pelo Lulu no final dos anos 70, uma pornochanchada com pretensões "cabeça" (olho umas fotos do tal filme nas páginas seguintes, parecia muito ruim). "Apesar disso", eu penso, "gosto do Lulu Santos. É um dos poucos caras que entendeu e soube fazer música pop no Brasil".
À noite, quase sem conseguir andar, ela é arrastada pela irmã até uma igreja gigantesca em Copacabana, toda feita de concreto, onde é colocada numa cadeira de rodas. Acompanho as duas, mas não as ajudo. Depois de percorrermos corredores, subindo e descendo rampas, chegamos a uma grande sala, uma espécie de gabinete, onde um homem aparentando uns 50 anos está à nossa espera. Usa uma camisa azul de colarinho alto. "Deve ser o pastor – ou um padre," eu penso, achando estranho que o cabelo dele (meio grisalho quando entramos) agora estivesse pintado de azul. A mulher começa a falar com o homem. Tem dificuldade de articular as palavras por causa do derrame. O homem ouve tudo com atenção, apoiando o queixo nas mãos. De repente, uma voz estranha começa a falar através dela. Um demônio, dizendo que tinha tentado de tudo para matá-la, mas que agora estava decidido a ir embora daquele corpo. Havia tentado convencê-la a tomar todos os comprimidos da gaveta, a pular da janela. Deixou-a doente e deprimida anos e anos, mas ela resistiu a tudo – e agora ele estava indo embora. A voz pára e a mulher se acalma. Agora ela é jovem, magra, bonita. Voltou a ter 17 anos. O pastor sorri, nos indicando a saída com as mãos. A jovem levanta da cadeira de rodas e começa a empurrá-la, vazia.