terça-feira, março 01, 2005

À noite, quase sem conseguir andar, ela é arrastada pela irmã até uma igreja gigantesca em Copacabana, toda feita de concreto, onde é colocada numa cadeira de rodas. Acompanho as duas, mas não as ajudo. Depois de percorrermos corredores, subindo e descendo rampas, chegamos a uma grande sala, uma espécie de gabinete, onde um homem aparentando uns 50 anos está à nossa espera. Usa uma camisa azul de colarinho alto. "Deve ser o pastor – ou um padre," eu penso, achando estranho que o cabelo dele (meio grisalho quando entramos) agora estivesse pintado de azul. A mulher começa a falar com o homem. Tem dificuldade de articular as palavras por causa do derrame. O homem ouve tudo com atenção, apoiando o queixo nas mãos. De repente, uma voz estranha começa a falar através dela. Um demônio, dizendo que tinha tentado de tudo para matá-la, mas que agora estava decidido a ir embora daquele corpo. Havia tentado convencê-la a tomar todos os comprimidos da gaveta, a pular da janela. Deixou-a doente e deprimida anos e anos, mas ela resistiu a tudo – e agora ele estava indo embora. A voz pára e a mulher se acalma. Agora ela é jovem, magra, bonita. Voltou a ter 17 anos. O pastor sorri, nos indicando a saída com as mãos. A jovem levanta da cadeira de rodas e começa a empurrá-la, vazia.