terça-feira, março 01, 2005
Espanha-sítio-Espanha
Encontro um amigo que começa a me contar sobre sua vida na Espanha, país de onde ele acaba de voltar – viveu lá o último ano. A cidade onde ele morava era pequena. "Mas perto de Madri, Barcelona, Sevilha?...", eu pergunto. "Não, parecia uma cidade do interior do Espírito Santo", ele explica. Começo então a ver o dia-a-dia por lá – uma rotina que na verdade se resumia a não fazer nada. Meu amigo ficava zanzando pela cidadela, sem trabalhar, apenas vadeando com as economias que levara. Conta que tinha uma inimizade no lugar, " com um judeu" (penso em como é típico desse meu amigo ressaltar se as pessoas são judias, pretas, ou qualquer coisa). E então passo a ver um grupo de homens judeus – judeus ortodoxos, com cabelos longos nas têmporas, chapeús e roupas escuras – andando numa floresta, que se adensa conforme eles seguem em frente. Na verdade, são dois clãs de famílias judias, cujos patriarcas conversam, uma conversa de acerto de contas, para decretar a paz entre as duas casas, com nos filmes sobre a máfia.A uma certa altura da estrada, eles interrompem a caminhada para observar um gravador de rolo, daqueles antigos, que está semi-enterrado na margem do caminho. Seguem em frente, e é então que eu pressinto que haverá traição entre eles: um dos grupos vai puxar suas armas numa clareira mais à frente e atacar. Aí eu entro na cena, que até então apenas via (mas eles não me enxergam): vou espalhando câmeras de cinema ao longo da estrada para filmar a "seqüência da traição". Digo os cortes de imagem que vou querer, os planos etc. – e os homens seguem conversando, como atores que ignorassem o diretor.Agora estou na porta de um sítio bem pobre, numa cidade do interior. É ali que moro com meus pais. Um primo meu chega, dirigindo um caminhão-tanque, como esses que transportam combustível. Entra na casinha e volta. Nos despedimos. Comento, junto com uma prima que também participa da conversa, que um dos pneus do caminhão está furado, ou vazio. Ele diz que já havia notado, que veio com ele daquele jeito, e voltaria assim mesmo. Liga o motor. Quando começa a sair, noto que há um prato de louça da minha mãe sobre o teto do caminhão (acho que meu primo comeu e esqueceu ali) e corro para segurar o prato, que vai se estatelar no chão. Faço sinais na frente do caminhão, meu primo freia bruscamente e derrapa na estrada de terra, indo parar numa cerca. Nisso, o prato cai e quebra, e seus cacos pulam no ar, voltando sobre nossas cabeças como uma enorme tempestade. Os pedacinhos começam a entrar na minha pele, grudam com força no meu couro cabeludo e em todo o resto do corpo. Vou para a casa coberto de cacos, blasfemando alguma coisa, e entro no chuveiro para tomar um banho.De volta à Espanha. Meu amigo mostra a casa onde morava. No quintal da residência vizinha – localizada uns dez metros abaixo de onde estamos – há um pastor alemão. Alguém lhe atira uma bola vermelha de plástico, que ele apanha. A bola é tirada dele por um outro cachorro, que é roubado por outro cachorro, e este por outro, até o quintal ficar tomado por uns 30 animais, brigando pela bola. Chega então um sujeito grande e musculoso, de cabeça raspada, com cara de pitboy. Ele pega a bola, e os cães fogem com medo. O homem sai da casa, fecha o portão e larga a bola, com desprezo. Vai entrar num carro (pequeno demais pra ele) quando vê passar um rapaz com um cão na corrente. O grandalhão resolve mexer com o rapaz, que não responde às provocações. O fortão entra no carro e começa a manobrá-lo, até que o rapaz decide reagir, prendendo o carro na vaga. Meu amigo – que agora não é mais o meu amigo, mas um outro primo (e não o do caminhão...) – sai correndo: "Vamos lá ajudar o rapaz!", ele grita.Logo há quatro homens bloquando a saída do carro. O fortão acelera, os pneus cantam. Observo a cena de perto, decidido a me entrometer apenas quando o motorista sair do carro (mas penso em apartar a briga inevitável, não em lutar). O cara acelera mais, parece que os quatro vão perder a parada. O carro começa a sair do lugar... Decido então ajudar os rapazes. E pelo jeito eu sou a força que faltava ao grupo: o carro estanca novamente, e aí começa a se chocar com o veículo que está na vaga da frente. Prendemos ele de vez.O grandão desliga o motor e sai, humilhado. Não abre a boca, porque sabe que vai levar uma surra se falar alguma coisa. Pelo menos aqui esse imbecil não vai mais cantar de galo.