terça-feira, março 01, 2005
Estou fazendo a cobertura de alguma reunião chatíssima, pessoas de terno e gravata se acotovelando por espaço numa mesa – mais que isso: elas querem é sair na foto. Anoto seus nomes num bloco, para a legenda das fotos, e eis que chega o meu chefe dizendo que está tudo errado, que os nomes não são aqueles! "Que trabalho inútil o meu..."Ainda naquela noite, diz o editor, eu viajo pra Chicago. Pergunta se a minha documentação está em dia, eu digo que sim, e ele me libera pra que eu passe em casa pra arrumar a mala. "É um trabalho chato e inútil", eu penso, "mas pelo menos eu tenho a chance de conhecer Chicago!".Em casa – que não é a minha casa – olho para o céu já escuro, pela janela da área de serviço, e vejo quatro luas cheias, meio que escondidas pela noite nublada. Uma lua em cada ponto cardeal do céu. "Vai ser bom ver isso do avião, por sobre as nuvens".Na rua, em frente ao prédio, onde já estou com a minha mala, duas mulheres discutem qualquer coisa sobre um Chevette estacionado na calçada. Acho que falam da urgência de jogar aquele carro no lixo e comprar um outro. Alguns quarteirões à frente, numa viela imunda onde ainda faz dia, um homem vende livros e cacarecos velhos, como nas calçadas da Glória. As coisas estão expostas em prateleiras, arrumadas em corredores, como numa loja. Páro pra ver uns discos, até que esbarro num livro aberto, uma página com uma foto do Lulu Santos, ainda muito jovem, cercado por livros, cacarecos, copos sujos, cinzeiros cheios – exatamente como naquele cenário onde eu estava.Na página, alguma coisa sobre um filme dirigido pelo Lulu no final dos anos 70, uma pornochanchada com pretensões "cabeça" (olho umas fotos do tal filme nas páginas seguintes, parecia muito ruim). "Apesar disso", eu penso, "gosto do Lulu Santos. É um dos poucos caras que entendeu e soube fazer música pop no Brasil".