quarta-feira, novembro 30, 2005

Tem um bebê sentado no chão com a minha mãe. Não se parece comigo, mas sei que sou eu.
Com a ajuda de pequenas peças educativas e alguns cartões, ela ensina ao bebê (eu) algumas palavras e o nome das cores.
Ela vibra quando ele aponta para um cubo preto e diz "preto".
Ele vibra com a alegria dela e bate palmas (aquelas palminhas tortas de bebê).

terça-feira, novembro 29, 2005

A despedida

Estou fugindo, a pé, de antigas namoradas e antigos casos amorosos, que me perseguem, me assediam e reclamam da minha ausência. Sigo então numa viagem, de táxi, até chegar a um ponto muito longe da cidade, numa região mais simples e rural, onde encontramos uma casinha. Neste momento entramos eu e ela na casa, sozinhos. Lá dentro, na casa mal iluminada, vemos outras pessoas que nos recebem no corredor e fazem ar grave, de profundo mistério e pesar sobre o que está ocorrendo. Entramos num quarto e vemos a mãe, que estava morrendo e precisava se despedir da filha. Chegamos até ela na beira da cama. A filha se debruça e a abraça. A mãe, deitada, me olha fixa, serenamente, e pede que eu as deixe sozinhas.

A herança

Era dia do meu aniversário. Saí com meus irmãos e alguns amigos para comprar bebidas para a comemoração. Em dado momento estamos reunidos dentro do Jardim Botânico, sob as árvores, conversando e bebendo, quando aparece meu pai, meio constrangido, meio nos constrangendo. Diz que sabe que "errou com a gente"... pede desculpas pelo que fez mas diz que sempre pensou no nosso bem estar material. Entrega a cada um de nós, entre os irmãos, "a sua parte da herança, um cheque de 10.000 dólares"... Eu me sinto muito mal com aquilo, penso em tudo o que aconteceu e choro. Meu irmão menor vem então me abraçar e diz que não é certo eu sofrer justo no dia do meu aniversário.

quinta-feira, novembro 24, 2005

E aí, Seu Papa? Belê?

Olha a bananosa em que a revista me colocou: o papa Bento 16 vem ao Brasil (vai ficar num lugar chamado "Vaticano" – acho que eles arrumam um Vaticano em todo lugar que vão) e eu fui convocado para entrevistá-lo. Será uma individual, mas eu terei apenas 15 segundos para falar com Sua Santidade. Aliás, agora eu estou no Google pesquisando pronomes de tratamento para falar com ele – oras, eu chamo o papa de quê? De "Sua Santidade" mesmo?

Outra coisa: será que eu serei obrigado pelo protocolo a me ajoelhar e beijar o anel papal, mesmo não sendo católico? Essa possibilidade me deixa desconfortável.

(alguém usou o meu computador e acessou o Google na versão em chinês, ou árabe, e agora eu não consigo trocar pelo alfabeto que eu entendo, olha só que bosta!)

Falar sobre o quê com o papa, e em 15 segundos? Alguém lê meus pensamentos e grita do fundo da redação: "Fala de xenofobiaaaaa!!!!" Fico tentando lembrar de alguma passagem bíblica que fale da aversão ao estrangeiro, um gancho pra tocar no assunto. Que repórter de merda que eu sou...

Esse papa tem uma excentridade: só fala com gente vestida de papa. Me arrumaram uma fantasia papal ridícula, dessas que vêm prontas, um kit da Casa Turuna (tem solidéu e tudo). Tô mais parecido com um enfermeiro que com o Santo Padre.

Olho pro relógio: estou atrasado pra entrevista. Desço correndo (só então eu percebo que estou em São Paulo), faço sinal prum táxi, entro e grito pro motorista:

TOCA RÁPIDO PRO VATICANO!!!

terça-feira, novembro 22, 2005

Beijo-a meio que à força, mas ela acaba cedendo quando nossas línguas se juntam. Ela é doce e serena, bem diferente da imagem que criou pra si mesma em seus livros e escritos. Entramos na casa e começamos a trepar no sofá da sala. Ela não é mais ela, mas uma outra que não vejo mais. “A boa foda, como nos velhos tempos...”, eu penso. Somos interrompidos por alguém que desce as escadas. Começamos a nos vestir com pressa. É o meu pai. Vem me apresentar um amigo gringo e me pede um favor: que eu escreva umas 20 linhas pro cara explicando pra ele o que é o chá-chá-chá (o gringo vai precisar desse “glossário” pra uma ilustração que vai publicar numa revista européia). Os dois saem da sala, e eu fico em dúvida: “Chá-chá-chá, xaxaxá ou tcha-tcha-tcha?” Ela me dá um beijinho. “Merda, odeio ser interrompido desse jeito”, digo. “Saudade de morar sozinho...” Ela ri e me mostra um pager: “Usava isso aqui quando dividia apê com fulana. Quem chegasse em casa primeiro acompanhada avisava a outra”, e começou a falar de suas aventuras sexuais e as da amiga (que sossegou depois de encontrar uma bailarina por quem se apaixonou).

segunda-feira, novembro 21, 2005

Bodas

O amigo vai casar. Alguns familiares e uns poucos camaradas estão acampados no Vale da Morte, onde vai ser realizada a cerimônia.

Mas não é o Vale da Morte californiano.

É um outro, um vale qualquer numa cidadezinha qualquer no sul (acho que é isso) do Brasil. Faz muito frio e tudo à nossa volta está coberto por um denso nevoeiro (difícil arriscar que horas são).

Próximo de onde estamos acampados há uma pousada. É lá que vamos tomar banho. Cobram caro os malandros: R$ 1 por minuto de chuveiro quente.

Acho um absurdo, mas compro R$ 10 de banho, que acabam logo (sou avisado por uma porrada de água gelada nas costas que me deixa ainda mais puto).

O banheiro é enorme: além do chuveiro (na verdade são três duchas que se cruzam a dois metros do chão, num box grande em que daria pra fazer uma festinha), há holofotes e um moderno sistema de som por toda parte (enrolado na toalha, tô tentando sintonizar algo que preste nas rádios oferecidas).

– Na verdade isso aqui é um estúdio de fotografia – me explica um funcionário da pousada.

Meu amigo (o noivo) me convoca para uma missão: ele quer comprar um cachorro. Entra numa casa ao lado da pousada e sai com um filhote (cocker? labrador? que porra é essa?) de pêlo castanho.

Rindo, pergunto a ele: "Cara, ou você casa ou compra um cachorro, né?"

sexta-feira, novembro 18, 2005

Três pra voltar

(1) Andando na rua, procuro não sei o quê no bolso da calça quando encontro um punhado de pequenas pedrinhas transparentes. "São diamantes", me diz uma mulher, que pára pra conversar comigo. Ela me arrasta até uma loja, pede que eu coloque as pedras sobre o balcão e começa a avaliá-las contra a luz. "Posso te pagar US$ 30 mil por elas. Valem mais, só que você vai ter problemas pra vendê-las por aí..." Pego o cartão dela e digo que vou ligar depois. Olho os classificados. "Quanto custa um apê em Copacabana?", eu penso. "Por quanto eu vou querer negociar esses diamantes, mesmo correndo riscos?"

(2) Minha mãe dizendo que detesta as almofadas do sofá da sala. Pede que eu dê cabo delas. Não penso duas vezes: levo tudo pro pátio do prédio e explodo as almofadas.

(3) Cheguei aqui no banco de trás do carro de um homem que veio cobrar uma dívida de bois com um fazendeiro. Estrada de terra, cu do mundo, nem sei como isso começou, como peguei essa carona. O cara estaciona o carro ao lado da porteira e entra. Fico esperando na estrada vazia, do lado de fora da fazenda. Um cabrtinho preso a uma árvore por uma corda começa a gritar. Me ajoelho para acarinhá-lo, ele se acalma. Estranho como o cabritinho fica hipnotizado pelo ir e vir das formigas no caule da árvore. Ele tem uns olhos grandes e amarelados.