sexta-feira, março 18, 2005

Estou na praia, qualquer praia, e faz calor. Quero andar pela praia e descobrir onde estou, que praia é essa, mas o calor é mais forte e não consigo levantar da areia. Na beira do mar, um casal anda devagar. Eles não parecem sentir calor, nem cansaço. E sabem onde estão. Eu não. Acordo com vontade de viajar.

quinta-feira, março 17, 2005

Cor de café com leite

Estou de frente para uma mulher que, no sonho, é a minha terapeuta. Nós
dois em pé. Entre a gente, uma janela (dessas de alumínio), fechada, através
da qual conversamos. "Ponha a mão no meu peito", ela me diz. Eu coloco.
"Não: sobre o meu peito", ela corrige, levantando a camisa e mostrando os
seios.
Minhas mãos e braços travam, ficam paralizadas, como nos sonhos em que
queremos gritar e correr mas não conseguimos (apesar disso, fico de pau duro
com aqueles peitos). "Viu?", eu falo pra ela. "É assim que acontece com
todos os meus desejos: não sei lidar com eles".
Ela então sai de onde está e vem para o meu lado. Segura as minhas mãos
e as olha, dizendo: "Você tem que aprender a mexer melhor com a vida..."
De uma panela, a mulher retira uma bola feita com uma espécie de massa,
quente e cor de café com leite. Parece aquelas bolas de látex que os
seringueiros fazem (tem o tamanho de um lençol embolado).
A mulher manipula aquilo um pouco, como massa de pão, e passa às minhas
mãos. Começo a brincar com a bola de massa, jogando-a de uma mão à outra,
enfiando nela os dedos, experimentando a textura, o calor, até deixar de
pensar em tudo: só existimos eu e o meu novo brinquedo.
"Agora tenta de novo", diz a mulher, já de volta ao outro lado da
janela, que agora está aberta. Ela tem um dos seios do lado de fora da
camisa. Largo a bola de massa e, lentamente, vou levando minha mão até ela,
toco-lhe o peito, aperto, corro o mamilo entre dois dedos.
Ela dá um passo atrás, ofegante e com os olhos fechados (está
excitada). "Viu só?", ela diz, enquanto sorri e abaixa a blusa.

De fora

Estávamos em uma dessas datas de festividades.

Não sei bem quem estava no sonho. Lembro que minha mãe estava. E, incrivelmente, conseguia nutrir por ela um sentimento escroto, de raiva, ódio e vergonha. Do mesmo tipo que eu sentia quando eu tinha 13 anos e ela namorava um cara de 18. Bizarro.

Uma série de ações aconteceu e só depois me toquei que estava no infeliz trabalho que consegui no começo da minha estada aqui. Era naquele restaurante empetecado e over, que só mesmo gente daqui para gostar de gastar tanto dinheiro com tão pouco conteúdo. A comida de lá sempre foi quase ótima. Só que dessa vez era nojenta.

De repente, lembro do que venho sentindo nesses dias estranhos enquanto estou acordada, e quando viro para o lado vejo meu namorado alegre, sóbrio, com um cara lava, consciente e (in)feliz.

Ele estava com alguém. Não era eu, claro. Mas era alguém que eu nunca tinha visto pessoalmente... Adivinhem só... era Cléo Pires, a musa brasileira que ele adora não sei por quê.

De repente a possível comemoração comportada da data se torna um auê, tipo grego, ou seiláoquê.

Minha mãe começa a dançar com Glória Pires como se tivesse 15 anos, meu namorado acha tudo muito sempre divertido e eu passo a odiar tudo.

Aquele lugar em que estava, meu ex-chefe, meus antigos colegas de trabalho, uma mãe que não é possível que seja a minha, Cléo, Glória e o babaca que se tornou meu namorado diante de bundas, peitos e rostos bonitos.

Saio dali deixando meu drink pela metade, com um cigarro novo na boca e a estranha sensação de que tudo será diferente a partir dali. Sem ninguém.

quinta-feira, março 10, 2005

O mercador português

Estou na serra, em uma estrada entre as montanhas. À minha direita, acima, vejo uma mulher cair, com sua asa delta, sobre uma cachoeira. As águas desta cachoeira sobem a montanha, em vez de descerem. Na verdade a água quase não se move, apenas ondula, e eu vejo uma mancha vermelha e azul - a mulher e sua asa - dentro d'água. Surge um helicóptero sobrevoando a cachoeira. Eu estou nele agora. Vamos içar a mulher com um cabo. Conseguimos tirá-la dali. Ela desce do helicóptero no topo do morro e transforma-se em um mercador português, parece-me. Veste calças de veludo escuro, botas, camisa branca bordada, capa de couro e um chapéu emplumado. O acidente com a asa delta leva a uma descoberta. Lá um grupo familiar, composto de homens, mulheres e crianças, todos com cabeça em forma de paralelepípedo e topete ruivo alaranjado, brincam, correm e jogam bola. A mulher então diz para o grupo que quer comprar o terreno para construir nele alguma coisa. Eles se revoltam com a proposta e a expulsam dali. Ela foge, correndo morro abaixo. Eles a perseguem e atiram nela com uma arma cujos petardos, vejo de perto, giram em câmara lenta. São pequenos cubos plásticos cinzas, do tamanho de um dado. Há neles estranhos símbolos gravados e em seu conteúdo estão guardadas "coisas perigosas".

A hiena


Estamos em uma casa no campo. Vejo uma arara vermelha pousada em uma árvore e anuncio a sua presença. Agora um tucano. Depois um inhambu, escuro, de bico comprido. Estou animado com aquela fauna. Surgem meus dois gatos, eles têm em companhia seus filhotes: uma meia dúzia de cachorrinhos cinzas. Todos correm para um terreno baldio próximo. Nesse momento surge um grupo de hienas. O terreno baldio agora é uma savana africana. Temo pelos bichanos e vou em seu socorro. Todas as hienas fogem, mas uma delas se esconde dentro de uma casa, em estilo moderno, anos sessenta: concreto aparente, grandes painéis envidraçados, pilares cilíndricos, móveis de jacarandá... A hiena sai de dentro da casa usando uma máscara de ferro de gladiador e me enfrenta. Consigo alcançar um perfil de metal, afio uma ponta e faço uma lança. A hiena avança em minha direção... tento espetá-la, mas ela desvia e morde a minha perna. De novo, a hiena em posição de ataque, avança em minha direção e... záááásssss! Atravesso a sua barriga com a lança. Olho a lança atravessando o animal, morto. Espeto a lança no terreno para preparar um churrasco, de hiena.

O banquete

Meus colegas de trabalho e eu estamos na mansão do meu chefe, onde
ele e a mulher nos oferecem um banquete. Parece que o lugar dele (o do
chefe) está ameaçado na empresa (às vezes o chefe também tem
chefes...), e o jantar é a última oportunidade dele para mostrar-se
amistoso e generoso com a equipe, onde tem sérios problemas de
relacionamento com vários colaboradores.

O banquete, portanto, é uma cartada final para ele ficar no emprego.

O chefe está sentado na cabeceira, com a mulher à direita. As
demais pessoas se espalham pelas quase vinte cadeiras. Na outra
cabeceira, euzinho. O serviço começa, as pessoas interrompem a
conversa, o único barulho do lugar passa a ser o de talheres e copos,
em suave atrito com o mundo.

"Mas que vinho de merda!", diz uma colega minha. "É claro que você
ia servir esse vinho de merda pra gente, seu miserável! Aposto que tem
coisa bem melhor na tua adega, mas você acha que a gente merece isso.
Tem mesmo é que ser demitido". Minha colega joga o guardanapo sobre a
mesa e sai. Depois de um espanto geral, a atitude ganha adesões, e
todos se mandam. Meu chefe e a mulher estão pálidos. "É. Agora já
era...", ele diz à esposa, dando-lhe um beijinho na testa e saindo com
ela da sala de jantar, de mãos dadas.

Estou sozinho na mesa. "Dane-se!", eu penso, enquanto vou enchendo
novamente o meu prato, que delícia de comida.

sonho de 07 para 08/03

Sem medo, vamoslá...

Mal fechei os olhos, caí no underground de mais um sonho sem nexo e ao mesmo tempo com muito material para ser destrinchado em algumas sessões de análise.

Não eram mais os rotineiros tiroteios na favela, dos quais vinha sendo vítima nas últimas noites de pesadelo. Também não se tratava de uma morte diferenciada e sentida por mim. Era, de fato, um sonho...

E que sonho. Talvez por causa das privações dos últimos tempos, sonhei com coisas realmente boas, se é que alguém pode definir isso.

Estava em uma casa enorme. Maior que qualquer outra em que eu já tenha dormido. Maior que a dos pais do Carlos, na Gávea, maior da qual eu morava na infância com toda a família, maior do que tudo.

E como sempre, não sabia direito quem estava comigo, quem não estava e quem teoricamente era para estar. Também não estava muito definido no sonho o que tinha me levado àquela situação, àquela casa, com aquelas pessoas.

O fato é que nessa tal mansão estavam todos os que conheci nesse último ano. Todas as pessoas do Rio com quem já tive ótimos momentos, e até as que eu mal cheguei a conhecer. Por sorte não estava ninguém que me desagrade. Mas, curiosamente, não estava ninguém com quem eu fosse muito íntimo, tipo o meu namorado. Sabia da presença do Carlos, mas ela não tinha tanto peso assim e raramente eu cruzava com o rosto dele ou até com a sensação de ter ele por perto.

Mais nitidamente, lembro-me que estava na casa um grande amigo, Cid, junto com Fábio e seus grandes amigos que eu considero muito e já até adoro. Acho que era o Marcelo e namorada, o tal do Dudu que eu vi uma única vez na vida, amigas do Fábio da época de faculdade, a francesa do Cid, e a maior pegadinha de todos os tempos, o tal do Nuno, ou Bruno, ou Virgílio, what ever.

A mansão à la “The Dreamers”, do Bertolucci, estava repleta das melhores coisas do mundo. Ou o que, para a minha micro noção de mundo, são as melhores coisas do mundo. Estou falando de comida, claro. Queijos, vinhos, chocolates e tantas coisas boas que mordíamos um pedaço qualquer e jogávamos o resto pelo chão.

Cada um fazia uma atividade diferente na casa. Uns viam televisão, outros bebiam e conversavam, outros rondavam pela casa, mas nada muito intrigante acontecia.

Lembro-me apenas no final – sim, porque sonho tem final, já que essa foi a última sensação que tive antes de abrir os olhos para olhar o despertador – de estar bem à la “Os Sonhadores”, sensualíssima, amorosa e nua com um dos amigos do Fábio e do Cid, vendo televisão, tomando champanhe e dando risadas. Mas não era nada muito sexual. Apenas vontade ficar perto, trocar carinho e sentir.

Agora me diz o que consigo tirar disso? Acho que nada.

terça-feira, março 01, 2005

Espanha-sítio-Espanha

Encontro um amigo que começa a me contar sobre sua vida na Espanha, país de onde ele acaba de voltar – viveu lá o último ano. A cidade onde ele morava era pequena. "Mas perto de Madri, Barcelona, Sevilha?...", eu pergunto. "Não, parecia uma cidade do interior do Espírito Santo", ele explica. Começo então a ver o dia-a-dia por lá – uma rotina que na verdade se resumia a não fazer nada. Meu amigo ficava zanzando pela cidadela, sem trabalhar, apenas vadeando com as economias que levara. Conta que tinha uma inimizade no lugar, " com um judeu" (penso em como é típico desse meu amigo ressaltar se as pessoas são judias, pretas, ou qualquer coisa). E então passo a ver um grupo de homens judeus – judeus ortodoxos, com cabelos longos nas têmporas, chapeús e roupas escuras – andando numa floresta, que se adensa conforme eles seguem em frente. Na verdade, são dois clãs de famílias judias, cujos patriarcas conversam, uma conversa de acerto de contas, para decretar a paz entre as duas casas, com nos filmes sobre a máfia.A uma certa altura da estrada, eles interrompem a caminhada para observar um gravador de rolo, daqueles antigos, que está semi-enterrado na margem do caminho. Seguem em frente, e é então que eu pressinto que haverá traição entre eles: um dos grupos vai puxar suas armas numa clareira mais à frente e atacar. Aí eu entro na cena, que até então apenas via (mas eles não me enxergam): vou espalhando câmeras de cinema ao longo da estrada para filmar a "seqüência da traição". Digo os cortes de imagem que vou querer, os planos etc. – e os homens seguem conversando, como atores que ignorassem o diretor.Agora estou na porta de um sítio bem pobre, numa cidade do interior. É ali que moro com meus pais. Um primo meu chega, dirigindo um caminhão-tanque, como esses que transportam combustível. Entra na casinha e volta. Nos despedimos. Comento, junto com uma prima que também participa da conversa, que um dos pneus do caminhão está furado, ou vazio. Ele diz que já havia notado, que veio com ele daquele jeito, e voltaria assim mesmo. Liga o motor. Quando começa a sair, noto que há um prato de louça da minha mãe sobre o teto do caminhão (acho que meu primo comeu e esqueceu ali) e corro para segurar o prato, que vai se estatelar no chão. Faço sinais na frente do caminhão, meu primo freia bruscamente e derrapa na estrada de terra, indo parar numa cerca. Nisso, o prato cai e quebra, e seus cacos pulam no ar, voltando sobre nossas cabeças como uma enorme tempestade. Os pedacinhos começam a entrar na minha pele, grudam com força no meu couro cabeludo e em todo o resto do corpo. Vou para a casa coberto de cacos, blasfemando alguma coisa, e entro no chuveiro para tomar um banho.De volta à Espanha. Meu amigo mostra a casa onde morava. No quintal da residência vizinha – localizada uns dez metros abaixo de onde estamos – há um pastor alemão. Alguém lhe atira uma bola vermelha de plástico, que ele apanha. A bola é tirada dele por um outro cachorro, que é roubado por outro cachorro, e este por outro, até o quintal ficar tomado por uns 30 animais, brigando pela bola. Chega então um sujeito grande e musculoso, de cabeça raspada, com cara de pitboy. Ele pega a bola, e os cães fogem com medo. O homem sai da casa, fecha o portão e larga a bola, com desprezo. Vai entrar num carro (pequeno demais pra ele) quando vê passar um rapaz com um cão na corrente. O grandalhão resolve mexer com o rapaz, que não responde às provocações. O fortão entra no carro e começa a manobrá-lo, até que o rapaz decide reagir, prendendo o carro na vaga. Meu amigo – que agora não é mais o meu amigo, mas um outro primo (e não o do caminhão...) – sai correndo: "Vamos lá ajudar o rapaz!", ele grita.Logo há quatro homens bloquando a saída do carro. O fortão acelera, os pneus cantam. Observo a cena de perto, decidido a me entrometer apenas quando o motorista sair do carro (mas penso em apartar a briga inevitável, não em lutar). O cara acelera mais, parece que os quatro vão perder a parada. O carro começa a sair do lugar... Decido então ajudar os rapazes. E pelo jeito eu sou a força que faltava ao grupo: o carro estanca novamente, e aí começa a se chocar com o veículo que está na vaga da frente. Prendemos ele de vez.O grandão desliga o motor e sai, humilhado. Não abre a boca, porque sabe que vai levar uma surra se falar alguma coisa. Pelo menos aqui esse imbecil não vai mais cantar de galo.

Mousse de Dollar

(...) Vamos almoçar em um restaurante. Agora penso que o lugar é semelhante a uma casa que havia numa rua paralela à nossa antiga casa em Itaipava, em frente ao Grande Hotel de Itaipava, onde moravam alguns moleques conhecidos da gente, isto quando eu tinha uns 9 ou 10 anos de idade. Mas eu já era adulto no sonho. Estávamos numa mesa grande e oval, em um canto à entrada do lugar. Eu e cinco mulheres. Quatro delas desconhecidas, olhos claros, muito brancas, umas ruivas, outras louras, e entre elas minha irmã, que é morena. O garçon traz, esporadicamente, à mesa, bandejas com acepipes de formas e nomes incompreensíveis, assim como "zuíchteng" ou "tufflone"... Mas parecem apetitosos. São como bifes, com várias camadas, intercaladas com diversos ingredientes e molhos variados... É hora de pagar a conta. Todos devem contas de quase 200 reais, mas a minha é de 93.400 reais. Instigado pelos demais vou até o gerente reclamar do preço. Digo a ele que não pago contas assim nem quando vou a Paris (eu nunca fui a Paris). Ele me explica, então, que o que pesou na conta foi a mousse de dollar, que vinha a ser uma mousse feita com notas de 100 dólares. Ele me dá a receita: Pegue um maço de notas de 100 dolares, jogue no liquidificador junto com um pacote de gelatina, acrescente leite, ovos, farinha, etc (...)

"Não perca as emoções finais de..."

Sonhei com o último capítulo de uma novela em que Cláudia Abreu era a protagonista. Ela fazia o papel de uma golpista que inventava uma personalidade para conquistar o coração de Dan Stulbach, um milionário bonzinho com quem ela acabou casando e tenho filhinhos. O parceiro de Cláudia Abreu nesses planos era o Fábio Assunção, defendendo um personagem igualmente canalha (só agora me dou conta que os dois "vilões carismáticos" eram uma reedição da dupla Renato Mendes & Laura, de "Celebridade").No último capítulo a situação era a seguinte: Cláudia, já casada e feliz com Dan Stulbach, está em casa, uma mansão meio hippie na zona sul do Rio, terminando de arrumar as malas. O casal está de mudança para a França – a família toda vai partir dali a três horas. Para casar com Dan, como já disse, Cláudia aplicou um golpe, inventando uma personagem boazinha, órfã. A idéia dela e do parceiro (e amante) Fábio Assunção era pegar a grana de Dan após o casamento, e deixar o cara na rua da amargura, com cara de tacho.Só que um dia – quando Cláudia e Dan já estavam casados – ela levou um soco de um dentista (outro cúmplice da dupla na mentira) que queria ir pra cama com ela (uma forma como ela "pagava" os seus favores, falsificações etc...) Com o soco e a queda no chão, Cláudia teve um crise de amnésia. Quando voltou a si, havia esquecido de sua personalidade má, incorporando a que inventara, a da menina boazinha.Fábio Assunção entrou em desespero, pois assim ele estava fora do golpe (ela nem lembrava mais quem era ele) e da vida dela... A cena principal deste último capítulio era a chegada do Fábio à casa de Cláudia, onde ele revelaria ao marido dela toda a história. Um último lance desesperado do vilão na tentativa de não perder sua amada, mesmo que isso custasse todo o dinheiro roubado por eles com o plano.E isso faltando três horas para o avião decolar rumo à França...Só que aí 0 meu celular tocou, eu acordei e perdi as cenas finais da novela.

Cascudos em James Bond

(...) Estou sentado em um auditório pequeno na expectativa do início de alguma palestra, ao lado de meu pai. O auditório parece com aquele do MAM, mas as poltronas são de couro avermelhado. Não estou nem à frente nem ao fundo. Estou próximo ao centro e à esquerda na platéia. Entre os presentes, mas afastados de mim estão meus ex-colegas de atelier. Enquanto a apresentação não começa noto que um sujeito duas ou três fileiras atrás e um pouco à minha direita começa a falar alguma coisa em tom provocador em direção a nós dois. Ele diz coisas dasabonadoras a respeito de meu pai. Diz que ele é um sujeito à toa, que não vale nada... Vai além e chama meu pai de mulherzinha. Eu viro e consigo enxergar entre as pessoas que o tal atrevido é o James Bond, o próprio 007, encarnado ali pelo Roger Moore. Ele está trajando um summer, aquele smoking branco com faixa e gravata borboleta, e continua a dizer desaforos, rindo e debochando sem parar. Eu levanto e o intimo a calar a boca. Ele continua os impropérios, porém. Então parto pra cima dele entre as poltronas. Ele some. Vejo que ele se arrasta sorrateiramente por entre as poltronas. Ele pretende me pegar pelo pé ou dar um bote traiçoeiro... Num instante eu o vejo e assim que ele passa eu aplico um forte cascudo em sua cabeça. Ele reclama do golpe mas some de novo. Nesta altura não há mais ninguém no auditório. Apenas nós dois, mas não consigo mais vê-lo. (...)

Buracos e Túneis

Meu pai e eu estamos no quintal da casa de um primo dele, fechando – com pás e enxadas – os buracos que um animal (cachorro ou coelho) vai fazendo. A cada buraco que tapamos, o bicho cava um novo, até que desiste e some, deixando que terminemos nosso trabalho. Vou lavar louça numa pia que fica na varanda de trás da casa, onde começa o quintal.
Saio da casa e agora estou na rua, que fica numa espécie de subúrbio com praia – ou uma cidade decadente da Região dos Lagos. No conjunto habitacional está acontecendo um show na rua para milhares de pessoas, a maioria jovens. Não consigo ver o palco. Estou lá atrás, onde a multidão já se dispersa. Andando de bicicleta, um menino de seus 14 anos acha uma pistola no chão, um revólver 38, e começa a atirar para o alto. Pedala em círculos, atira e ri. Ninguém se abala. Meu pai aparece no portão para ver o que está acontecendo. Estamos os dois de vestidos de branco (eu de calça e ele de bermuda). Decido avisar à produção do show, feita por um amigo, sobre o que está acontecendo (os tiros na rua). Encontro-o no caminho, e ele resmunga dos piercings que acabou de pôr nos dois mamilos: “Droga! Estão doendo, e eu queria uma corrente unindo os dois”.
Ele some e eu volto a procurá-lo. Entro num jogo de túneis (como nos vestiários dos estádios) que vai dar nos camarins. Digo aos seguranças que procuro fulano, e eles me liberam. No caminho, ainda no túnel, há o portão de uma mansão, onde mora o maior empresário da noite carioca. Um grupo de entregadores de pizza quer entrar para mostrar a ele (o empresário) um número musical. Os seguranças liberam, e as motos entram. A entrada da casa também é um corredor, com paredes brancas luz fria como no resto dos túneis – só que estas são cobertas por desenhos feitos por crianças.
No fim do corredor há uma escada, dando no hall dos camarins. Subo e escuto a voz de um outro amigo, que ri e fala no celular.

Galinhas baianas

(18/19-01-2005) Estou viajando pelo litoral da Bahia. Não é uma Bahia ensolarada nem urbana, mas selvagem e cinzenta, típica dos invernos baianos. Viajo de carro em uma estrada no litoral com um grupo de pessoas, mas só me lembro de um amigo, imensamente gordo no sonho. Agora estou na praia olhando para um duna de areia, uma falésia, no pé da qual vejo este amigo, deitado de bruços, achatando e escondendo quase integralmente com o corpo obeso, uma menina pequena e delicada -- uma prostituta, eu pensei. Pareceu-me que aquilo era um grande feito. Na verdade toda a cena parece uma pintura. Não há movimento, está tudo parado: A falésia, meu amigo, a menina sob ele. Eu de fato pego a cena com as mãos. É uma pequena pintura agora nas minhas mãos. Então a pintura torna-se página de revista. A imagem citada agora está acima e à esquerda da página. À direita dela há um texto: Lorem ipsum dolor sit amet. Continuo a viajar e me deparo com um imenso declive de areia, com quase 90º de inclinação e 500 m de extensão até abaixo, à beira mar... Deslizo naquela encosta de areia que desemboca naquele turbilhão de águas. Vejo o fluxo e o refluxo das ondas como uma sequência de fotos aéreas feitas por satélite, semelhantes aos registros feitos do grande Tsunami na Ásia. Cair ali será fatal. Mas não há como sair da rampa. A velocidade aumenta a medida que deslizo. Consigo pular para uma borda e escapo da morte. Estamos de novo na estrada. Todos têm fome. Alguém sugere um lugar que vende galinhas vivas. Seguimos para este local. O estabelecimento fica numa casa antiga e chama-se Agro-Ace. Vejo isto num letreiro. Está repleto de galinhas vermelhas, amarelas e azuis, soltas, passeando. As galinhas fazem parte de alguma performance artística. Então eu e meu amigo começamos a discutir sobre o que vamos comer. Ele é ríspido e acabamos brigando. Eu aplico nele um soco, em câmera lenta. Olho para a minha mão direita e vejo nela um Band-aid nos dedos máximo e indicador.

Coral de cabeça pra baixo.

Estou em um grupo com um ex-colega de atelier além de algumas meninas que julguei "antenadas" mas que eram desconhecidas, em Minas Gerais, em uma casa grande, cheia de aposentos e meio sombria. Fui convidado - parece que meu colega tinha alguma ligação anterior com o grupo - para fazer parte de um coral que entoaria canções regionais não sei de onde, em determinado show. As pessoas cantariam alinhadas, lado a lado, mas todas de cabeça pra baixo. Havia um tipo de cortina ou janela, de modo que o corpo das pessoas não ficasse muito visível para a platéia, apenas os rostos. Lado a lado e de cabeça pra baixo. Eu estava animado a participar. Súbito alguém determina que seriam dois grupos a cantar: Um formado pela maioria e o outro, um dueto. E eu ficaria de fora... Fiquei muito decepcionado diante disso. Imediatamente depois soube que meu colega não iria mais participar do coral, desta vez porque não queria se expor naquela empreitada, uma vez que "tinha já um nome artístico à zelar...". Eu fiquei duplamente constrangido. Fiquei pensando, no sonho, se tenho me envolvido com as coisas certas.
Estou fazendo a cobertura de alguma reunião chatíssima, pessoas de terno e gravata se acotovelando por espaço numa mesa – mais que isso: elas querem é sair na foto. Anoto seus nomes num bloco, para a legenda das fotos, e eis que chega o meu chefe dizendo que está tudo errado, que os nomes não são aqueles! "Que trabalho inútil o meu..."Ainda naquela noite, diz o editor, eu viajo pra Chicago. Pergunta se a minha documentação está em dia, eu digo que sim, e ele me libera pra que eu passe em casa pra arrumar a mala. "É um trabalho chato e inútil", eu penso, "mas pelo menos eu tenho a chance de conhecer Chicago!".Em casa – que não é a minha casa – olho para o céu já escuro, pela janela da área de serviço, e vejo quatro luas cheias, meio que escondidas pela noite nublada. Uma lua em cada ponto cardeal do céu. "Vai ser bom ver isso do avião, por sobre as nuvens".Na rua, em frente ao prédio, onde já estou com a minha mala, duas mulheres discutem qualquer coisa sobre um Chevette estacionado na calçada. Acho que falam da urgência de jogar aquele carro no lixo e comprar um outro. Alguns quarteirões à frente, numa viela imunda onde ainda faz dia, um homem vende livros e cacarecos velhos, como nas calçadas da Glória. As coisas estão expostas em prateleiras, arrumadas em corredores, como numa loja. Páro pra ver uns discos, até que esbarro num livro aberto, uma página com uma foto do Lulu Santos, ainda muito jovem, cercado por livros, cacarecos, copos sujos, cinzeiros cheios – exatamente como naquele cenário onde eu estava.Na página, alguma coisa sobre um filme dirigido pelo Lulu no final dos anos 70, uma pornochanchada com pretensões "cabeça" (olho umas fotos do tal filme nas páginas seguintes, parecia muito ruim). "Apesar disso", eu penso, "gosto do Lulu Santos. É um dos poucos caras que entendeu e soube fazer música pop no Brasil".
À noite, quase sem conseguir andar, ela é arrastada pela irmã até uma igreja gigantesca em Copacabana, toda feita de concreto, onde é colocada numa cadeira de rodas. Acompanho as duas, mas não as ajudo. Depois de percorrermos corredores, subindo e descendo rampas, chegamos a uma grande sala, uma espécie de gabinete, onde um homem aparentando uns 50 anos está à nossa espera. Usa uma camisa azul de colarinho alto. "Deve ser o pastor – ou um padre," eu penso, achando estranho que o cabelo dele (meio grisalho quando entramos) agora estivesse pintado de azul. A mulher começa a falar com o homem. Tem dificuldade de articular as palavras por causa do derrame. O homem ouve tudo com atenção, apoiando o queixo nas mãos. De repente, uma voz estranha começa a falar através dela. Um demônio, dizendo que tinha tentado de tudo para matá-la, mas que agora estava decidido a ir embora daquele corpo. Havia tentado convencê-la a tomar todos os comprimidos da gaveta, a pular da janela. Deixou-a doente e deprimida anos e anos, mas ela resistiu a tudo – e agora ele estava indo embora. A voz pára e a mulher se acalma. Agora ela é jovem, magra, bonita. Voltou a ter 17 anos. O pastor sorri, nos indicando a saída com as mãos. A jovem levanta da cadeira de rodas e começa a empurrá-la, vazia.